Trago memórias de olhares do passado, de quando eu era criança. Olhares de ternura, sem intenções e sem expectativas. Esperavam de mim apenas que eu fosse criança, e nada mais. Em troca, me davam apertão na bochecha, Kinder Ovo, boneca. Levavam-me pra passear, pediam beijinho e eu sempre ganhava um abraço de urso. Faziam gracinhas pra me ver sorrir, só porque risada de criança é gostosa. E depois, me jogavam pro alto, me carregavam no colo e me faziam carinho pra dormir. Parti para a vida adulta com essas referências felizes. Mas ganhei idade pra começar a apanhar. E descobri que viver dói... Até conhecer o amor. Em um piscar de olhos, a esperança renasce. O colo, o passeio, o carinho, tudo acontece de novo. E o olhar de ternura devolve a certeza de que somos incondicionalmente queridos, de que nenhum mal nos acontecerá. Por um instante, o amor basta. Mas ele também cresce, e também faz suas escolhas. Insiste na mania de ser responsável, racional, lógico. E a lógica pressupõe medidas perfeitas. Compatibilidades. Postulados, hipóteses e conclusões. Assim, muitas vezes o amor é desprezado como a resistência do ar. Acontece. Dizem que pra compartilhar a vida é mais importante sincronizar as complicadas personalidades dos adultos do que simplesmente amar. Só que eu não consegui me acostumar com essa ideia. E nem quero tentar. Então, estou indo embora. Aos 25 anos, me refugio no asilo da infância eterna pra redescobrir o amor e para voltar a ser criança. Lá, quando eu sentir vontade de perguntar de novo "por que é que tem que ser assim?", vão me responder: "Porque sim". E finalmente, desprovido de complicações e questionamentos, o amor voltará a fazer sentido e será suficiente para acalmar o coração. Fique à vontade para me visitar quando quiser. E não se esqueça do Kinder Ovo. Beijos sabor chocolate!
Vocês não fazem idéia da angústia que sinto ao pensar no ofício do escritor.
Meu sonho adolescente era ser escritora. Culpa do Fernando Sabino que embalou minhas primeiras leituras juvenis com seus romances-crônicas envolventes e divertidos. Daí eu me atrevi a começar um livro. A imaginação adolescente não é muito extensa. Por isso a minha trama envolvia uma jovem, um rapaz, um affair, um vilão (que não era vampiro), uma traição e um desfecho com o qual eu planejava surpreender meus leitores. História feita na cabeça, era só pegar caneta e papel - sim, eu ia escrever a mão! - e começar.
Não consegui.
Durante meses eu tentei colocar em palavras a história que eu contaria numa roda de conversa, do começo ao fim, sem gaguejar. Mas as páginas em branco do caderno velho onde comecei esboçar meu romance se tornaram as vilãs da minha carreira de escritora. Quando estava diante delas, angustia e ansiedade me possuiam - e eram abafadas apenas quando a imaginação e o vocabulário conseguiam produzir alguns parágrafos. Foram apenas quatro páginas de muito trabalho braçal.
Faltou inspiração.
A vontade de contar algo criado pela imaginação ou algum fato trazido do fundo da memória tem que ser acompanhada dessa coisa chamada inspiração. Tem definição pra isso no dicionário. Mas para mim inspiração é desejo, é criatividade, é lúdico, é poesia. Tudo junto e misturado no ser do escritor, que por sua vez, tem que estar disposto a perceber que tem isso dentro dele. E efervecer, e inquietar-se, e permitir que se traduza em emoções explodidas em palavras. Fazer isso pode ser um exercício de auto-conhecimento ou exorcismo de si mesmo. De qualquer forma é um processo. E é intenso.
Por isso cada vez que termino de ler um romance, ainda que não seja uma obra tocante, logo penso no quão dificil e, possivelmente, doloroso foi para o autor materializar aquela idéia e imprimir as várias emoções. O prazer da obra pronta é a recompensa. Mas antes dele tem aquele processo...
A minha inspiração vive quieta dentro de mim. Ela se alimenta da coragem e da disposição dos autores que leio para, quem sabe um dia, me expor da mesma forma. É um sonho. E sonhar pode ser essencial à inspiração.
Cansado, o coração tinha pedido férias. Remuneradas com pouco significado: por enquanto, seria melhor assim. Sem pretensões e sem intensidade. Desgastou-se nos desentendimentos com o cérebro. Vingado, deixou a paixão de castigo. Sem alimento, até segunda ordem. Mandou o amor para uma ilha deserta. Sem passagem de volta. Lá ele ficaria, até que fosse forte o suficiente para vencer as marés. Na paz e na tranqüilidade, viveu a comodidade das emoções anuladas. Estava tudo bem, nada mais inquietava. Mas não podia viver sem poesia. Sofria sua ausência. Pedia inspiração. Tinha medo da morte Do pulsar em fraca velocidade Que fazia sua arte repousar. Veio um olhar na multidão. Um único olhar, entre tantos inquietos Assustou a poesia sonolenta. Pedia atenção. Queria versos. Que seria? Uma bênção? Um resgate? Uma digressão? Uma compensação? O que quer que fosse Fez sorrir Fez cantar Fez acelerar Trouxe de volta o significado Embora não pudesse significar O sentido virá? Os sentidos virão? Não se sabe... Não se espera... Na memória do beijo imaginado Na sombra do momento não vivido Na testemunha do encontro incomodado O despertar da poesia fez tudo valer a pena Novamente, a vida pela vida A arte pela arte.
Nada a declarar, quando a música fala por mim. http://www.youtube.com/watch?v=eDr3u5MF2HQ&feature=player_embedded#at=34 Eu já estou com o pé nessa estrada Que notícias me dão dos amigos? Num domingo qualquer, qualquer hora Que notícias me dão dos amigos? "Nada será como antes", é o que garantem Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. É o que confirma a voz de Elis Regina, nessa e em tantas outras músicas... "No presente, a mente, o corpo é diferente: e o passado é uma roupa que não nos serve mais".
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes amanhã
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes, amanhã
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
Fui do céu ao inferno, Vi a paz no meio do caminho. Passei direto. Busquei a plenitude Aquela traiçoeira! Nenhum segundo dura a vida inteira. O que foi e o que será Talvez nunca chegou Talvez nunca se vá. Na solidão do incerto, Abri a porta. Li, reli, pensei. A razão entrou Se apoderou de mim: Me entreguei. Veio a música Passou pelo vão Me fez sentir viva Me fez sentir Me fez Era domingo. Dia de ser humano Dia de chorar Dia de dormir Dia de se arrepender Dia de descansar Dia de sofrer Dia de rir Dia de se completar Mas faltava. Ela me fez companhia Por três minutos e meio E se foi. Chamei outra. Por três minutos e meio Ela se foi. Viciei. Mas chega a hora em que as notas se calam "It's a quarter after one" O silêncio da noite escancara A ausência conformada Até sábado eu não tinha percebido Ou não queria perceber. Ou não tinha nada pra perceber. Amo. Mas não sei por quê Nem para quê. O silêncio traz a razão de volta. Eu me calo E adormeço. E sonho. E esqueço. "There's a song that's inside of my soul, It's the one that I've tried to write over and over again..."
E aí, tanta coisa acontece, tantas perguntas mudam, tantas respostas se tornam insatisfatórias... "Faltava abandonar a velha escola, tomar o mundo feito Coca-Cola Faltava eu acordar, ser gente grande pra poder chorar..." ... Pra ressignificar as lágrimas. Seguir com a única certeza da incerteza. Prudente, com certa frequência. Medrosa, às vezes. Corajosa, como nunca. Errando, como sempre. Caminhando. Tropeçando. Caindo na balada. Sóbria. Sóbria da alegria de viver em busca do que faz sentido. Renovando antigos sentidos, buscando sentidos coexistentes entre o ganhar e o perder. Afinal, ganhar e perder devem ser sinônimos, ou irmãos de causa e consequência. "Não haveria som se não houvesse o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim" Não temos culpa de preferir o som. Não temos culpa de preferir o silêncio. Em ambos os casos, preferimos exclusivamente a nossa felicidade. Pra isso, tantas vezes fazemos outros sofrerem. Há culpados? Há egoísmo? Há maldade? Tudo o que vejo nesse mundo é uma busca desesperada, que muitas vezes deveria ser pré-absolvida. Mas nem sempre é fácil entender quando a busca desesperada é do outro e você resolveu parar pra descansar. É mais difícil ainda saber se pra esse descanso acontecer é preciso um encosto, uma solidão, ou qualquer coisa que te assegure. O amor, talvez? Está aí uma coisa que não assegura mais ninguém. Papo antigo... Out...será? Existirá E se virá Enquanto isso Existirá Voltar ou ir pra frente? Ir pra frente também pode desenhar um círculo. O círculo muda de direção toda hora, mas continua em frente e volta pro mesmo lugar. Já parou pra pensar nisso? Eu não quero mais tentar antever onde vai dar. E não quero ficar parada. E viva a força centrípeta! Viva o horizonte! Viva a régua! Viva a mão de Deus! Viva qualquer fator externo que vá me guiar, porque eu estou à disposição.
Em todo porto tremulará
A velha bandeira da vida
Acenderá
Todo farol iluminará
Uma ponta de esperança
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra
Não nos custa insistir
Na questão do desejo
Não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê
Que o inferno é aqui
E toda raça então experimentará
Para todo mal
A cura
Estou por trás de todas as escolhas. Ao contrário do seu sorriso, não preciso provar nada a ninguém. Prefiro cair quando estamos a sós, mas às vezes você faz questão de ser notado. Besteira... Ninguém pode me entender, a não ser você mesmo. Só você pode medir o quanto sou sincera. Às vezes, sou motivada por um drama, uma imaturidade, uma birra, um desespero, entre outras circunstâncias permeadas pela falsidade. Depois que o tempo passa, até aceito essas classificações. Mas o meu presente nunca é equivocado. Só venho à tona quando tenho certeza de que minha atuação é necessária. Só a lágrima tem a verdadeira onisciência. Quando apareço na alegria, é porque a dor teve uma pausa. Então, não acredite se uma pessoa disser que está chorando de felicidade. Ela chora por se lembrar de uma dor que foi superada por aquele momento específico. E como felicidade nunca é plena, ela também chora por medo de doer de novo. E sempre volta a doer, porque as pessoas sempre partem, os amores sempre acabam, os sentidos sempre mudam, as quedas continuam a ferir. Viver não tem fim. Provo isso quando venho motivada pela morte: Seja qual for o tempo, posso fazer qualquer um reviver. Tenho sido bastante solicitada pelo coração. Mas a ordem de serviço vem do cérebro, meu verdadeiro chefe. Não posso cair se ele não mandar. Não sei quem disse que o coração e o cérebro eram de departamentos diferentes. O coração é tão operário quanto eu, só que ele age como um funcionário insubordinado. E graças a essa falha corporativa, tenho trabalhado bastante. Ando exausta. Se fosse seguir todas as vontades do coração, eu cairia toda hora. Podia passar o dia inteiro caindo. E quanto mais trabalho, mais preciso trabalhar. Sabendo disso, a chefia faz a moderação pra me poupar. Imaginem como o mundo ficaria estranho no dia em que eu não tivesse mais forças pra cair? A lágrima move o mundo. Ninguém pode comigo. Você pode tentar me segurar, mas eu vou aparecer quando você menos esperar. Mesmo se você não chamar, eu tenho minhas obrigações. Sou enviado para te fazer mais humano. Sou a única constante na tua vida, às claras ou às escondidas. Na tua solidão, eu estarei lá, recordando momentos bons que não voltam mais ou vivendo a dor pela falta dos que ainda não vieram. Em geral, vão dizer que você não tem motivos para me receber. Mas só nós dois sabemos. Às vezes, sei dos seus motivos melhor que você, por isso me manifesto para te lembrar o que você é e o que você sente de fato. Logo, não entendo quando você se revolta com a minha queda, tentando lutar contra você mesmo. Todos tentam te convencer que eu sou inútil, que eu não deveria dominar você. Mas eu não domino ninguém, eu ajudo a exercitar o auto-domínio. Isso significa que eu te ajudo a ser mais você, porque o mundo te inspira a ser o contrário o tempo todo. Preciso confessar: fico enfurecida quando leio a ordem de serviço e no motivo está escrito "saudade de quem está vivo". Caramba! Quantos momentos bons eu poderia curtir com a minha família, amigos e amores se você não se esforçasse tanto pra ficar longe dos seus. Isso que eu chamo de labuta desnecessária. E é bem nessas horas que eu ativo uma das minhas melhores habilidades: caio para tornar presente quem está ausente. Alivio-te por alguns instantes. Medida meramente paliativa, só tem um jeito de resolver esse problema e você sabe como. E por saber como se faz pra resolver, você me chama novamente. Pois nem sempre aplicar o saber é tão simples, sobretudo quando a saudade é motivada pela rejeição alheia. A rejeição é uma fonte de dor infinita, porque quem rejeita uma ou duas vezes tende a rejeitar sempre. E superar uma dor significa senti-la novamente. Ignorar os fatos não vai apagá-los da sua memória: pode ser que eles voltem quando aquela tal felicidade lá se for.
Mas não se preocupe: sempre que precisar de mim, estarei aqui. É curioso como um líquido tão leve, próprio da fragilidade, seja capaz de te dar tanta força. Mas somente eu, sua maior fonte de auto-conhecimento, posso conduzir seus passos aos caminhos cada vez menos errados. Me leve com você e eu te guio, com todo o prazer e com toda a dor que justificam a tua ânsia de se encontrar no final, para um novo começo.