DOMINGO


 

Fui do céu ao inferno,

Vi a paz no meio do caminho.


 

Passei direto.


 

Busquei a plenitude

Aquela traiçoeira!

Nenhum segundo dura a vida inteira.

O que foi e o que será

Talvez nunca chegou

Talvez nunca se vá.


 

Na solidão do incerto,

Abri a porta.

Li, reli, pensei.

A razão entrou

Se apoderou de mim:

Me entreguei.


 

Veio a música

Passou pelo vão

Me fez sentir viva

Me fez sentir

Me fez


 

Era domingo.


 

Dia de ser humano

Dia de chorar

Dia de dormir

Dia de se arrepender

Dia de descansar

Dia de sofrer

Dia de rir

Dia de se completar


 

Mas faltava.


 

Ela me fez companhia

Por três minutos e meio

E se foi.

Chamei outra.

Por três minutos e meio

Ela se foi.

Viciei.


 

Mas chega a hora em que as notas se calam

"It's a quarter after one"

O silêncio da noite escancara

A ausência conformada

Até sábado eu não tinha percebido

Ou não queria perceber.

Ou não tinha nada pra perceber.


 

Amo.

Mas não sei por quê

Nem para quê.


 

O silêncio traz a razão de volta.

Eu me calo

E adormeço.

E sonho.

E esqueço.


 

"There's a song that's inside of my soul, It's the one that I've tried to write over and over again..."

Dilacerando Paradigmas

E aí, tanta coisa acontece, tantas perguntas mudam, tantas respostas se tornam insatisfatórias...

"Faltava abandonar a velha escola, tomar o mundo feito Coca-Cola

Faltava eu acordar, ser gente grande pra poder chorar..."

... Pra ressignificar as lágrimas.

Seguir com a única certeza da incerteza.

Prudente, com certa frequência. Medrosa, às vezes.

Corajosa, como nunca. Errando, como sempre.

Caminhando. Tropeçando. Caindo na balada. Sóbria.

Sóbria da alegria de viver em busca do que faz sentido.

Renovando antigos sentidos, buscando sentidos coexistentes entre o ganhar e o perder.

Afinal, ganhar e perder devem ser sinônimos, ou irmãos de causa e consequência.

"Não haveria som se não houvesse o silêncio.

Não haveria luz se não fosse a escuridão

A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim"

Não temos culpa de preferir o som. Não temos culpa de preferir o silêncio.

Em ambos os casos, preferimos exclusivamente a nossa felicidade.

Pra isso, tantas vezes fazemos outros sofrerem.

Há culpados? Há egoísmo? Há maldade?

Tudo o que vejo nesse mundo é uma busca desesperada, que muitas vezes deveria ser pré-absolvida. Mas nem sempre é fácil entender quando a busca desesperada é do outro e você resolveu parar pra descansar. É mais difícil ainda saber se pra esse descanso acontecer é preciso um encosto, uma solidão, ou qualquer coisa que te assegure. O amor, talvez? Está aí uma coisa que não assegura mais ninguém. Papo antigo... Out...será?

Existirá
Em todo porto tremulará
A velha bandeira da vida
Acenderá
Todo farol iluminará
Uma ponta de esperança

E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra

Enquanto isso
Não nos custa insistir
Na questão do desejo
Não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê
Que o inferno é aqui

Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal
A cura

Voltar ou ir pra frente? Ir pra frente também pode desenhar um círculo.

O círculo muda de direção toda hora, mas continua em frente e volta pro mesmo lugar. Já parou pra pensar nisso?

Eu não quero mais tentar antever onde vai dar. E não quero ficar parada.

E viva a força centrípeta! Viva o horizonte! Viva a régua! Viva a mão de Deus! Viva qualquer fator externo que vá me guiar, porque eu estou à disposição.

Reflexões da sua lágrima


Estou por trás de todas as escolhas. Ao contrário do seu sorriso, não preciso provar nada a ninguém. Prefiro cair quando estamos a sós, mas às vezes você faz questão de ser notado. Besteira... Ninguém pode me entender, a não ser você mesmo.

Só você pode medir o quanto sou sincera. Às vezes, sou motivada por um drama, uma imaturidade, uma birra, um desespero, entre outras circunstâncias permeadas pela falsidade. Depois que o tempo passa, até aceito essas classificações. Mas o meu presente nunca é equivocado. Só venho à tona quando tenho certeza de que minha atuação é necessária. Só a lágrima tem a verdadeira onisciência.

Quando apareço na alegria, é porque a dor teve uma pausa. Então, não acredite se uma pessoa disser que está chorando de felicidade. Ela chora por se lembrar de uma dor que foi superada por aquele momento específico. E como felicidade nunca é plena, ela também chora por medo de doer de novo. E sempre volta a doer, porque as pessoas sempre partem, os amores sempre acabam, os sentidos sempre mudam, as quedas continuam a ferir. Viver não tem fim. Provo isso quando venho motivada pela morte: Seja qual for o tempo, posso fazer qualquer um reviver.

Tenho sido bastante solicitada pelo coração. Mas a ordem de serviço vem do cérebro, meu verdadeiro chefe. Não posso cair se ele não mandar. Não sei quem disse que o coração e o cérebro eram de departamentos diferentes. O coração é tão operário quanto eu, só que ele age como um funcionário insubordinado. E graças a essa falha corporativa, tenho trabalhado bastante. Ando exausta.

Se fosse seguir todas as vontades do coração, eu cairia toda hora. Podia passar o dia inteiro caindo. E quanto mais trabalho, mais preciso trabalhar. Sabendo disso, a chefia faz a moderação pra me poupar. Imaginem como o mundo ficaria estranho no dia em que eu não tivesse mais forças pra cair?

A lágrima move o mundo. Ninguém pode comigo. Você pode tentar me segurar, mas eu vou aparecer quando você menos esperar. Mesmo se você não chamar, eu tenho minhas obrigações. Sou enviado para te fazer mais humano. Sou a única constante na tua vida, às claras ou às escondidas.

Na tua solidão, eu estarei lá, recordando momentos bons que não voltam mais ou vivendo a dor pela falta dos que ainda não vieram. Em geral, vão dizer que você não tem motivos para me receber. Mas só nós dois sabemos. Às vezes, sei dos seus motivos melhor que você, por isso me manifesto para te lembrar o que você é e o que você sente de fato.

Logo, não entendo quando você se revolta com a minha queda, tentando lutar contra você mesmo. Todos tentam te convencer que eu sou inútil, que eu não deveria dominar você. Mas eu não domino ninguém, eu ajudo a exercitar o auto-domínio. Isso significa que eu te ajudo a ser mais você, porque o mundo te inspira a ser o contrário o tempo todo.

Preciso confessar: fico enfurecida quando leio a ordem de serviço e no motivo está escrito "saudade de quem está vivo". Caramba! Quantos momentos bons eu poderia curtir com a minha família, amigos e amores se você não se esforçasse tanto pra ficar longe dos seus. Isso que eu chamo de labuta desnecessária. E é bem nessas horas que eu ativo uma das minhas melhores habilidades: caio para tornar presente quem está ausente. Alivio-te por alguns instantes. Medida meramente paliativa, só tem um jeito de resolver esse problema e você sabe como.

E por saber como se faz pra resolver, você me chama novamente. Pois nem sempre aplicar o saber é tão simples, sobretudo quando a saudade é motivada pela rejeição alheia. A rejeição é uma fonte de dor infinita, porque quem rejeita uma ou duas vezes tende a rejeitar sempre. E superar uma dor significa senti-la novamente. Ignorar os fatos não vai apagá-los da sua memória: pode ser que eles voltem quando aquela tal felicidade lá se for.

Mas não se preocupe: sempre que precisar de mim, estarei aqui. É curioso como um líquido tão leve, próprio da fragilidade, seja capaz de te dar tanta força. Mas somente eu, sua maior fonte de auto-conhecimento, posso conduzir seus passos aos caminhos cada vez menos errados. Me leve com você e eu te guio, com todo o prazer e com toda a dor que justificam a tua ânsia de se encontrar no final, para um novo começo.

Eu e as palavras...

Estou com sono, mas preciso escrever a vida, e tem que ser agora.

Músicas, letras, intenções.
Livros, páginas, cadernos, folhas soltas.
Versos, poemas. Redes sociais, horóscopo. Astrologia.
Runas, tarô do amor, do trabalho, do sim ou não.
Igrejas, padres, pastores, guias espirituais. Homilias, orações.
Bíblia. Imitação de Maria. Imitação de Cristo.
Auto-ajuda. Cura interior. Cartões, lembranças, presentes, SMS.
E-mails, conversas. Diálogos, monólogos, debates, consultas.
MSN, Skype, Gtalk, comunicadores em geral.
Revistas, jornais, blogs, notícias, opiniões.
Vídeos, animações, literatura.
Séries, cinema, arte, expressão.

Eu não consigo parar. Eis o meu verdadeiro vício.
Em toda parte, procuro palavras em busca de certezas, mas só encontro respostas, interpretações e nenhum sossego.
Eu procuro em toda parte porque não consigo encontrar dentro de mim.
"Que lugar me contém, que possa me parar?"
Cheia de dúvidas, sigo.

Ao passo que sigo, espero.
Espero a meia noite, espero virar a página.
Espero trocar a home, atualizar o navegador.
Espero chegar a mensagem, espero a hora certa de mandar. Intimar, convidar, reagir, replicar.
Espero a resposta que não vem.
Espero a paz em forma de palavras que a ninguém importam mais que a mim mesma.
Palavras escritas ou ausentes, boas ou ruins.
Ah... A estabilidade das palavras, que trazem a instabilidade das ideias.
Ideias que não correspondem aos fatos... e o tempo não pára.
Não quero mais só a expressão do começo, nem a síntese do fim.
Quero um texto que dure a vida inteira, e não apenas passe por mim.

Quando falo e quando calo, escuto.
Se eu sufocar com pedidos e explicações, tradução de sensações
Suplicar ouvidos às minhas perguntas, questionamentos, intenções
Não pense jamais que quero prender
Quando peço palavras, só tento me libertar.

É bom...

Um velho calção de banho, um dia para vadiar
experimentando tudo o que é possível para viver um grande amor
e assim amar, ai de mim, muito mais do que podia amar
mesmo que haja dor do amor que teve fim, que foi ruim, sei que sim outro amor há de apagar
amar,
sentir-se fraco, peito extravasado, e com tudo isso que é capaz de confundir o espirito de um homem, perceber que amar é sofrer.
e o que é que tem sentido nesta vida?
a tristeza que não tem fim, mas que tem a esperança de um dia não ser mais triste não?
por isso eu só acredito em liberdade e estar sempre com saudade de viver um grande amor
E jà que a vida é pra valer - e não se engane não, tem uma só!
então, hei de morrer de amar mais do que pude.


Pela sinergia que existe entre librianos, filhos de Xangô ou poetas e súditos, me enchi da poesia de Vinicius de Moraes justo na semana que completa 30 anos da sua morte. Claro, não me lembrei disso enquanto ouvia repetidas vezes o repertório nos últimos dias. Foi intuitivo.

A poesia do Vinicius faz com que eu não me sinta de todo só no mundo.

Assim como ele eu acredito que o amor é a essencia. Do ser, do universo. O amor é a dor e o conforto. A solidão e a saudade. O amor é a coisa boa que une e equilibra.

Amar é ser completo.
E Vinicius amou.

Mulheres, amigos, musica, Xangô, poesia, Rio, Bahia, "coisinhas verdinhas de que eu gosto tanto", como disse uma vez em entrevista.
E eu busco essa completude.
Eu quero amar.
Sempre.
E muito.
Mesmo com a onipresença da tristeza - tão certa e segura da sua existência.

Essa semana os versos do Vininha povoaram meus pensamentos, tocaram meu coração, me fizeram bem. Porém, de tudo o que ouvi, o mais singelo e talvez menos significativo poema foi o que mais me provocou. Afinal, é o cenário perfeito para fazer crescer o amor tão sufocado pelas relações formais do cotidiano. É a comunhão entre homem e natureza.
Não é só bom. Deve ser sensacional...

...passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã, falar de amor em Itapuã.


ahhhh poetinha...

Fluxo de Consciência


 

"You're so ahead of yourself that you forgot what you need. Though you can see when you're wrong, You know, you can't always see when you're right"

"Você está tão adiante de si mesmo que esqueceu o que precisa. Apesar de poder ver quando está errado, você sabe, nem sempre se pode ver quando se está certo"

Vienna, Billy Joel. Não à toa, é música tema do filme "De repente 30". Aquele momento em que boa parte dos seres humanos param e pensam "Meu Deus, o que tô fazendo da minha vida"?

Mas há quem pare e pense nisso antes. Porque a gestão da vida funciona como em um plano de negócios: é uma sequência de chutes baseada na experiência de outros times. Tem primeiro tempo. Tem segundo tempo. Tem tiro de meta. Tem impedimento. Um montão de juiz. Uma torcida contra. Uma torcida a favor. Patrocinadores. Uniforme. Correria. Cansaço. Um ou outro gol. Um cartão vermelho atrás do outro.

Não sei se isso é bom, mas a cada dia que passa meu plano de negócios fica mais falido por causa desses cartões vermelhos. Eu tenho as metas. Tenho os parâmetros. Tenho a lógica padrão. Tenho o comportamento adequado e sigo modelos socialmente aceitáveis. Mas toda hora a vida me traz possibilidades que fazem toda essa baboseira perder o sentido. Eu quero cometer faltas!!! Faltas graves!!! Faltas improváveis!!!

Eu não sei quando vou me arrepender por não ter cometido essas faltas capazes de preencher boa parte dos meus vazios. Largar o trabalho dos relacionamentos estratégicos para ser amiga da música despretensiosa... Trocar uma alimentação saudável por café, coxinha, coca e chocolate... trocar o café pelo vício da paixão... trocar a paixão pelo amor companheiro... (já perceberam que amigo e amor tem o mesmo radical? E que isso muitas vezes parece uma coisa beeem radical?)

"I don't believe in many things, But in you I do"

"Eu não acredito em muitas coisas, mas em você eu acredito"

"To dreams that never will come true… Am I strong enough to see it through?"

"Aos sonhos que nunca virão a ser verdade, eu sou forte o bastante para ver isso acabar?"

Ao menos na minha música, tudo pode se tornar real.

É tempo de desligar o rádio.

Não que eu ignore o valor da música.

Mas desligar o rádio é preciso. É preciso ouvir o som do entardecer perto de sua casa. Deixar que o seu pensamento componha sua própria música, em uma orquestra da maior variedade que já se fez.

É preciso ouvir a música que vem de você. Aquela que você está compondo a todo momento, e que acaba se perdendo nos ruídos do rádio. A música do seu mundo, que vem da janela do seu carro, da sua casa. Feita de uma mistura improvável de barulho do motor, buzinas e gotas de chuveiro. É preciso ouvir o som do entardecer que existe no seu caminho de volta. Você conhece?

É preciso também desligar a TV. Desligá-la e abrir todas as janelas num fim de tarde com ar parado, como hoje. Escutar os latidos na vizinhança e imaginar que tipo de assunto pode dar tanto pano pra manga na cabecinha daqueles animais...

Hoje eu vi no jornal que os surdos se saem melhor em laboratórios, em atividades que exigem concentração. E fiquei pensando, por um momento, em como a surdez pode ser libertadora. Em como a anulação deste sentido pode criar novos paradigmas de percepção. Você já pensou nisso? Você quer desenvolver isso?

Quando seus dedos coçarem para desligar o rádio, não hesite. Você não vai encontrar um som tão real como aquele que só você ouve, só você entende e só pra você fará sentido. Não há letra de música, melodia ou arranjo que resuma a sua existência.
Desligue o rádio, hoje.

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