Fluxo de Consciência


 

"You're so ahead of yourself that you forgot what you need. Though you can see when you're wrong, You know, you can't always see when you're right"

"Você está tão adiante de si mesmo que esqueceu o que precisa. Apesar de poder ver quando está errado, você sabe, nem sempre se pode ver quando se está certo"

Vienna, Billy Joel. Não à toa, é música tema do filme "De repente 30". Aquele momento em que boa parte dos seres humanos param e pensam "Meu Deus, o que tô fazendo da minha vida"?

Mas há quem pare e pense nisso antes. Porque a gestão da vida funciona como em um plano de negócios: é uma sequência de chutes baseada na experiência de outros times. Tem primeiro tempo. Tem segundo tempo. Tem tiro de meta. Tem impedimento. Um montão de juiz. Uma torcida contra. Uma torcida a favor. Patrocinadores. Uniforme. Correria. Cansaço. Um ou outro gol. Um cartão vermelho atrás do outro.

Não sei se isso é bom, mas a cada dia que passa meu plano de negócios fica mais falido por causa desses cartões vermelhos. Eu tenho as metas. Tenho os parâmetros. Tenho a lógica padrão. Tenho o comportamento adequado e sigo modelos socialmente aceitáveis. Mas toda hora a vida me traz possibilidades que fazem toda essa baboseira perder o sentido. Eu quero cometer faltas!!! Faltas graves!!! Faltas improváveis!!!

Eu não sei quando vou me arrepender por não ter cometido essas faltas capazes de preencher boa parte dos meus vazios. Largar o trabalho dos relacionamentos estratégicos para ser amiga da música despretensiosa... Trocar uma alimentação saudável por café, coxinha, coca e chocolate... trocar o café pelo vício da paixão... trocar a paixão pelo amor companheiro... (já perceberam que amigo e amor tem o mesmo radical? E que isso muitas vezes parece uma coisa beeem radical?)

"I don't believe in many things, But in you I do"

"Eu não acredito em muitas coisas, mas em você eu acredito"

"To dreams that never will come true… Am I strong enough to see it through?"

"Aos sonhos que nunca virão a ser verdade, eu sou forte o bastante para ver isso acabar?"

Ao menos na minha música, tudo pode se tornar real.

É tempo de desligar o rádio.

Não que eu ignore o valor da música.

Mas desligar o rádio é preciso. É preciso ouvir o som do entardecer perto de sua casa. Deixar que o seu pensamento componha sua própria música, em uma orquestra da maior variedade que já se fez.

É preciso ouvir a música que vem de você. Aquela que você está compondo a todo momento, e que acaba se perdendo nos ruídos do rádio. A música do seu mundo, que vem da janela do seu carro, da sua casa. Feita de uma mistura improvável de barulho do motor, buzinas e gotas de chuveiro. É preciso ouvir o som do entardecer que existe no seu caminho de volta. Você conhece?

É preciso também desligar a TV. Desligá-la e abrir todas as janelas num fim de tarde com ar parado, como hoje. Escutar os latidos na vizinhança e imaginar que tipo de assunto pode dar tanto pano pra manga na cabecinha daqueles animais...

Hoje eu vi no jornal que os surdos se saem melhor em laboratórios, em atividades que exigem concentração. E fiquei pensando, por um momento, em como a surdez pode ser libertadora. Em como a anulação deste sentido pode criar novos paradigmas de percepção. Você já pensou nisso? Você quer desenvolver isso?

Quando seus dedos coçarem para desligar o rádio, não hesite. Você não vai encontrar um som tão real como aquele que só você ouve, só você entende e só pra você fará sentido. Não há letra de música, melodia ou arranjo que resuma a sua existência.
Desligue o rádio, hoje.

O cheiro da tinta...

Ainda ontem, passei pelo corredor do prédio em tinta fresca e estremeci com um momento déja vu. Eu tinha seis anos quando percebi esse cheiro pela primeira vez. Também era a primeira vez que eu entendia o significado de uma casa própria. "Ué, pai, aqui não vem ninguém pra cobrar o aluguel?" – "Não filhinha, não vem. É a nossa casa". Recordo-me desse aroma inspirador como se fosse ontem. Ele me chamava para o novo. Insinuava o universo de possibilidades apresentadas por aquela casa enorme, com aquele quintal gigante e aquela rua cheia de crianças.

A biblioteca, agora, tinha uma sala só pra ela. Os livros brilhavam na prateleira. Eu não via a hora de poder colocar em prática tudo o que havia aprendido naquela lousinha singela, que minha irmã usava na outra casa para me ensinar a ler e a escrever. Até então, apenas esperava ansiosa pelas aulas de recorte e colagem da pré-escola. A professora nos estimulava a escrever apenas o próprio nome, o restante da estratégia era composto por brincadeiras que, mais tarde, fiquei conhecendo como atividades lúdicas. Pedagogia da fantasia, enquanto era muito difícil e nada atrativo entender o mundo que nos esperava. Melhor brincar.

Desse novo mundo, fui chegando perto lá pela sexta série. "Você nunca ficou com ninguém? Boca-virgem? Não sabe o que está perdendo". Na verdade, eu estava mais preocupada em aprender a fatorar e a terminar de ler os livros que eu havia emprestado na biblioteca. O prazo para devolução estava acabando. E o tempo passava. E quanto mais o tempo passava, mais eu me sentia estranha por não me interessar pelos meninos desinteressantes da escola. De todos, apontei o menos pior e disse: gosto desse. Só pra me sentir menos deslocada dentro de mim mesma.

Eis que veio o primeiro amor. Sensação diferente. Durou uns quatro dias. Foi o coração que escolheu. Mais tarde, a razão mostrou que o menino era tão desinteressante quanto os outros. E daí nasceu a expressão "coração burro da porra". Que se repetiu infinitas vezes, por períodos variados. Amores platônicos, amores quase possíveis e os plenamente possíveis, que costumam durar mais e fazer um estrago maior. Mas o começo é sempre o começo. Uma delícia.

Aí você conclui: não parece uma tremenda idiotice comparar o tempo que eu gastei lendo com o tempo que as minhas amigas gastaram beijando na boca, como a leitura indicasse superioridade? Pois bem. Metade delas virou mãe solteira ou se (enterrou) casou antes dos 20,ou poucos anos depois. A outra metade está mais ou menos como eu. Mas são meninas que beijaram mais do que eu. Isso quer dizer que viveram mais a juventude do que eu. E também pode significar que carregam mais feridas do que eu. Por outro lado, poucas, ou nenhuma, podem ter provado a sensação do primeiro beijo mágico, com intensidade mútua, que virou paixão, se tornou amor e que... bem, acabou na merda. Tudo bem, sem lamentações. O cheiro do primeiro beijo se repetiu pouco tempo depois, em uma nova paixão que também acabou... E vai continuar se repetindo, quantas vezes forem necessárias.

Portanto, não vamos comparar. Todas nós estávamos buscando a felicidade. Nos livros, nas bocas, nos recortes e colagens, nos quebra-cabeças da existência. O que não vivi ontem me permitiu viver o que vivi hoje. A negação traz a possibilidade. A inexperiência leva à experiência. Viver implica se arriscar. Para o sim ou para o não, haverá conseqüência. Haverá mais vida.

Para quem beijou muito ou pouco, chega o tempo da responsabilidade. Trabalhar, estudar de verdade, se engajar em um projeto social, construir seu círculo de amigos, cuidar da família. Aturar chefe estressado, aturar professor mal amado, aturar a si mesmo - a parte mais difícil. Porque ser responsável implica estar o tempo todo com pessoas que te fazem encontrar o melhor e pior de você mesmo. Daí, ser desobediente pode te conduzir a uma grande tragédia. Ser obediente, também. A palavra responsabilidade vem de "resposta". Sim e não. Tudo depende de você.

Pressão demais. O sim é mais fácil... você vai lá e compra o que a infância sonhou. Se afoga em dívidas. Estoura todos os seus cartões de crédito. Tenta superar as privações de uma juventude inteira com alguns salários que mais parecem prêmios da loteria. Afinal, você nunca teve tanto dinheiro nas mãos. Parece que, depois de se ferrar tanto, o sucesso chegou. E ele vai parar no SPC em poucos meses. Com o sucesso se divertindo lá, você se sente um fracasso. Percebe que tudo precisa ser diferente.

E faz diferente. E vê as oportunidades surgindo novamente. Vê, inclusive, que o fracasso não foi fracasso. Que realizar os sonhos, ainda que pequenos, continua valendo a pena. Mas entende que não vale a pena trocar a felicidade em doses homeopáticas pelo prazer orgásmico de uma única vez. Até porque, depois que passa, a gente sempre pensa: "Foi só isso?" Sim... é tudo tão rápido... sempre... Boa mesmo é a alegria que vem devagar.

Já não há mais casa própria. Mas o aluguel é pago pelo internet banking. Já não há mais amor. O emprego é diferente. A cabeça é diferente. A experiência e a inexperiência caminham lado a lado. Há mais amigos de qualidade... Há mais entendimento do que seja o amor. A idealização e a decepção continuam amigas para combater o inimigo comum da realidade. Ou seja, as três continuam existindo e convivendo com a nossa alma. No fim da batalha, só existe uma opção: recomeçar. Então pare e sinta... nunca se esqueça do cheiro da tinta. A guerra continua.

Normal

Normal.
"Amanhã a tarde capaz que chova"
- Normal.
"Já começaram as campanhas eleitorais de 2010..."
- Normal.
"...e as propostas são as mesmas de 2006"
- Normal.
"E você? Como está?"
- Normal.
Dito assim, seco, sem exclamações, reticencias ou reverberação de vogais, normal é como uma tendencia da estação. É o nude. Mais do que isso: normal é um estado de espirito.
Ou uma convenção social. Ou um modo de vida.
(normal way of life...)
Normal padroniza comportamentos.
Usa drogas? Anti-depressivos? É ciumento, possessivo ou egoísta? É tudo isso??
- Normal.
Absolve ausências.
"Não te liguei, mas não esqueci de você..."
- Normal.
Atenua as fraquezas humanas.
"Eu não queria, mas o odeio com todas as minhas forças!"
- Normal.
E no momento que você percebe que quase nada se encaixa, se justifica ou faz sentido; que toda palavra dita lhe soa falsa ou vazia e começa a sentir parte da angústia vivida pela G.H do romance de Lispector, não tenha dúvida que...
Pára!
Isso não é normal.
Se ninguém percebeu é porque esse é um problema exclusivo. Só seu.
E não vá buscar resposta nos especialistas.
(Aliás, morte aos intelectuais...discursos, apenas discursos...)
Porque vai haver um momento que, por algum motivo, você vai se dar conta de que existe. Humano e miserável. E quando esse momento chegar...
Assobie, cante uma música, vá ler um jornal.
Relaxa. Está tudo bem.
Tudo nude.
Normal.

Epifania ou Algo Que Precisava Ser Falado

Várias vezes ouço dizerem: “nossa Julia, sua memória é boa”, mas todas as vezes foi minha memória curta (aquela de coisas que aconteceram há 1 dia, 2 dias, etc). A minha memória longa é, na verdade, deplorável, quase inexistente. Sério: tirando aquelas coisas muito, mas muito marcantes que acontecem na nossa vida, é muito raro eu lembrar dos detalhes do meu passado – tipo minhas brincadeiras favoritas da infância, episódios de Doug Funnie, Chaves or whatever.

Porém, por motivos que algum psicólogo leitor deve saber, as sensações nunca me fogem. Em suma: não sei direito por que, mas Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dogville me mostraram como o ser humano é vil; não sei recitar (sequer lembro os títulos), mas Augusto dos Anjos tem os meus poemas preferidos; e, por argumentos que já tive na ponta da língua, discordo plenamente das revistas masculinas e do endeusamento do Capitão Nascimento. Eu simplesmente sei, entende? E, acredite, não é uma certeza burra. Eu simplesmente confio na minha linha de pensamento, sei lá. Eu não sou idiota, porra.

O que eu quero dizer é que essa coisa das sensações, da sensibilidade (talvez), fazem todo o sentido do mundo pra mim. Muito mais do que argumentos racionais. Do que o empirismo. Do que uma troca de idéias em uma bodega qualquer. [de novo: algum psicólogo??] O problema é que é muito difícil desvendá-las, pra mim. [Acho que mando bem em textos presumidamente didáticos, contanto que tenham um objeto racional. Vai falar de sentimento... aí, desculpa. Tem outras duas nêgas muito mais gabaritadas para tal.]

E sabe o que é interessante? Quando as coisas fazem sentido, é tão bom! É prazeroso, é lindo. Isso pode, sim, acontecer durante uma troca de idéias ou de um momento contemplativo da arte, por exemplo, mas o legal é quando a coisa vem de você mesmo, sabe? Aqueles momentos epifânicos que a gente tem às vezes. Não são fáceis nem freqüentes, são insights que temos ao longo da vida e que, pra mim, norteiam muitas coisas.

Algo – que eu não sei exatamente o quê, só sei – me faz ter certeza absoluta que o sentido das coisas está dentro de nós. Aqueles dilemas gigantes da nossa vida, aquela angústia que corrói... é num momento em que você se distancia um pouco meio que pra olhar a paisagem lá fora [sentir o cheiro de asfalto molhado que vem da rua], quase como se aquilo não existisse... aí é que o sentido vem, que a resposta chega, que você se sente pleno.

Desculpa aí pelo discurso clichê e confuso. É que, cara, quando isso acontece...

Porque eu não leio jornais...

Não sei o que está se passando no Senado. Não faço idéia. Aliás, faço idéia, mas não quero detalhes. Sinceramente, minha vontade é falar um "Foda-se!" bem sonoro cada vez que ouço/leio sobre o assunto.

Passei quatro anos me graduando para ser uma comunicadora social habilitada a trabalhar com jornalismo. O problema é que, antes disso, eu passei minha adolescência toda sonhando em ficar adulta e ganhar aquilo que nunca tive: dinheiro. A incompatibilidade de gênios (e grana) levou ao divórcio com a profissão. Me formei, me separei e antes que tomasse a iniciativa de rasgar o papel que nos unia o STF fez o favor de invalidá-lo. Pois é. Não se pode mais terminar um relacionamento sem intervenções.

Ah, sim! Por que não leio jornais.

Pelos erros de português. Fosse eu acionista de um grande grupo de comunicação venderia todos os meus ativos ainda que mal cotados no pregão. Concordância verbal se aprende no ensino fundamental. E coesão deveria ser algo genético. Assim prevaleceria a teoria darwinista e só os melhores - e mais adaptados - sobreviveriam no mercado de jornalismo. Garanto que teriamos leituras bem mais agradáveis.

Faltam assuntos. Sala de espera de consultório médico costuma render diálogos mais frutíferos do que as páginas dos mais conceituados cadernos da imprensa nacional. Semana passada aprendi sobre autismo com uma pedagoga que aguardava ser atendida na clínica. O papo fluiu e terminamos discutindo sobre a nulidade do Estado diante das questões educacionais. E em momento algum nossas opiniões foram respaldadas por informações tiradas dos jornais. Os de hoje, por exemplo, se resumem a um acidente na Fórmula 1, ao aterrorizante virus da gripe e, claro, Sarney e sua quadrilha, digo, familia. De útil mesmo só os números da loteria federal.

Os mesmos adjetivos aos "sub-grupos" sociais; as opiniões formadas e nunca repensadas dos articulistas; a carência de argumentos nas miseráveis análises da realidade; as manchetes arrogantes de economia; as fotos vazias de conteúdo; a inutilidade anunciada em tempos de farta informação virtual. Por que não leio jornais? Enfim...

Sei que é deselegante criticar o ex, mas nesse caso me dou essa prerrogativa, pois analisei detalhadamente diversas formas de fazer dele, jornalismo, algo melhor. E joguei a toalha. O aspecto financeiro foi apenas a parte prática do nosso rompimento. Na verdade, entre nós faltaram duas coisas: amor e disposição. O amor me manteria fiel a ele, sem pensar em outras profissões mais rentáveis. E a disposição não permitiria que eu me rendesse à mediocridade.(Como se pode ver foi melhor para ambos)

Ontem à tarde liguei na central de relacionamento de um grande jornal para cancelar a oferta de 15 exemplares gratuitos. O solícito atendente me apresentou todas as vantagens da assinatura, me ofereceu uma série de filmes clássicos pela metade do preço e diante das negativas, me perguntou "Mas por que a senhora não quer aproveitar nossa promoção?" E eu, com toda sinceridade que me é possível, respondi: "Porque eu não leio jornais..."

Hoje não recebi o exemplar.

Academia = acefalia?

Já sei, já sei... você viu o título e achou que este texto falaria mal das pessoas que passam horas na academia suando e puxando ferro?

Fique atento. As aparências enganam. Além disso, tudo é uma questão de ponto de vista. Pode depender apenas da calçada onde você está.

De lado, um ponto de ônibus. Pessoas chegando da faculdade, cansadas. Algumas gordas, outras flácidas, magras corcundas. A garota fitness olha pra fora e pensa: “Olha lá... estuda tanto que esquece do corpo... o que adianta ser inteligente assim e ser feia”. Empina o bumbum, dá uma olhadela no espelho, gosta do que vê e continua. Mira ao lado, vê uma aluna recém chegada, padrão mulher brasileira... barriguinha saliente, um culotinho aqui, celulite ali. Sente-se superior. Arruma a postura, lança um olhar de “sou veterana, pode babar” e prossegue na exaustiva missão de se posicionar no mercado como “a mais gostosa” – e apenas isso.

Lá de fora, a pseudointelectual pára e observa... “Cenário insano! Bando de alienados! Eu não tenho tempo pra nada, enquanto essas pessoas desperdiçam horas preciosas nesse lugar”. Olha para os livros, gosta do que vê e continua. Dá uma olhadinha para trás, avista uma amiga de sala, sarada, popular, que também acabou de descer do ônibus. “Burrinha, coitada”. Sente-se superior. Ajeita os óculos, deixa o título dos livros à mostra e prossegue na exaustiva missão de se posicionar no mercado como “a mais inteligente” – e apenas isso.

Engraçado. Não à toa os universitários também são chamados de acadêmicos. Academia não significa nada mais do que “lugar onde pessoas incompletas podem se sentir superiores umas às outras”. Porque é impressionante como muitas pessoas de ambas as academias buscam um motivo pra se sentirem um pouco melhores diante de um certo vazio – seja o vazio da insatisfação corporal, seja o vazio da insatisfação mental.

Felizmente, a grande maioria não está interessada em provar nada pra ninguém. São essas pessoas que eu sinto prazer em conhecer, nas duas academias. Justamente por não serem assim previsíveis, são surpreendentes (Perdoem-me a obviedade dispensável do sofisma, mas não achei mesmo outra maneira de expressar isso).

Dia desses, ganhei um amigo colorista. Colorista, o que é isso? Bom, é a profissão de um manipulador de polímeros pigmentares. Químico? Não, mais complicado que isso. Poxa, mais complicado que química? Sim, isso é possível. Legal, aprendi mais uma.

Subi pra aula coletiva, fui obrigada a presenciar um convite de racha. Eu ali, a mulher padrão Brasil com condicionamento físico razoável. Ao meu lado, uma gostosa inconformada passou a fazer seus movimentos observando os meus, tentando provar (não sei pra quem) que conseguia uma elevação de perna mais acentuada. E enquanto eu seguia tranqüila, me esforçando apenas para cumprir a proposta do exercício, a gostosa parecia uma louca destrambelhada tentando levar o joelho no teto. A necessidade de auto-afirmação lhe custou um papel ridículo. Terminada a aula, deixou o local com os peitos estufados sem dizer nada a ninguém. Nem mesmo agradeceu a professora. Só faltou dizer “Meu nome é Zé Pequeno, porra”.

Desci de novo, pra treinar. Afinal, as pessoas vão à academia pra isso. Certo? Nem todas. Algumas têm aproveitado o espaço pra namorar e beijar na boca. Definitivamente, não consigo entender: Sair do aconchego do lar pra dar uns pegas sob pingos de suor, com beijo salgadinho e tudo. Eca! Coisa mais brochante! Ah, e se eu aviso que está incomodando logo vou ser tachada de mal-amada, que se incomoda com a felicidade alheia. Gorda. Bah.

Me deixa aqui, cuidando de mim. Do meu jeito, meio desajeitada, às vezes persistente, ultimamente meio preguiçosa, em busca de consciência corporal, algo que vai muito, muito além de uma bundinha empinada (que também é bem legal). Não me pressione a ser super mulher, tudo de uma vez. Pode chamar de má vontade, mas olhando bem o panorama, percebi que ser a tal mulher moderna do século 21 é uma tremenda sacanagem, e eu estou bem afim de desacelerar. Moro sozinha, trabalho, me sustento, estudo, cuido da casa, faço bico, freela de qualquer coisa, canto em três bandas, cuido das amizades, da família e das redes sociais, administro sozinha a própria vida sem capital de giro e ainda por cima tenho que me manter alta, magra, linda e morena, com os cabelos sempre bem tratados, unhas sempre bem feitas, além de nunca, nunca falar um palavrão porque é feio? Ah, faça-me o favor. À putaqueopariu.

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